Coletânea Histórica

REVISTA COLETÂNEA HISTÓRICA 1908 A 1998

“Os museus não apresentam soluções. Eles devem fazer perguntas. Devem praticar a ironia – ela ajuda na reflexão acerca dos problemas e na busca das soluções. É a forma de fazer a vida melhor. O museu não vai mudar a realidade.”

Jacques Hainard – Museu de Etnografia – Neuchâtel – Suíça

Esta publicação pretende apenas elencar dados que despertem para mais uma leitura da nossa história. Portanto, é um trabalho aberto. Pode parecer factual, mas o Museu não deve conceituar. Ele deve questionar, levando o leitor à busca e reflexão acerca das próprias descobertas. O Museu não vai mudar a realidade, mas ele pode contribuir para o reconhecimento das identidades culturais, para seu fortalecimento e para o reconhecimento da existência de outras culturas, que merecem igual respeito. Deve também proclamar a necessidade de um desenvolvimento humano integral, caracterizado pelo conhecimento e inserido em um meio devidamente preservado, utilizado racionalmente para sobrevivência das atuais gerações, tudo cuidadosamente conservado para garantir os direitos das gerações futuras. Nesse momento, em que a globalização ameaça a preservação das características culturais, ele deve contribuir, mediante um processo devidamente concebido, para a assimilação benéfica da tecnologia que nos chega avassaladora e usar desse recursos para garantir o resguardo dos valores, da ética, das manifestações de toda natureza, enfim, do comportamento.

“Hoje, mais do que nunca, a função educativa do museu tem que ser enriquecida com uma faceta informativa suficientemente atrativa para competir com outros meios inseridos na sociedade que atuam em nossas vidas cotidianas.”

Hernan Crespo Toral

Toda essa discussão justifica a necessidade de modernizar cada vez mais as atividades do Museu, que deve estar integrado ao contexto em que atua. As características próprias da sociedade devem ser preservadas. No entanto, as ações culturais devem estar em constante transformação, visando não só a diversidade das coleções, que compõe os acervos, mas o público a ser abordado. Por isso esta publicação, primeiramente pela observação da necessidade de se refletir acerca dos acontecimentos nas várias áreas de atividades de Penápolis, pois, constata-se também a impertinência dos temas no que diz respeito à sua utilização social. Reforçam essa preocupação as diversas avaliações dos fatos históricos do município. E, finalmente, compreende-se função do Museu a divulgação da memória, uma vez que ele detém os elementos comprobatórios e os mecanismos de busca. O Patrimônio Nosso Senhor do Passos representa o marco inicial da ocupação da noroeste, o Salto do Avanhandava foi o ponto estratégico das frentes desbravadoras e o rio Tietê representou o primeiro caminho desses grupos. Devemos, pois, assumir esses fatores como elementos propulsores do povoamento dessa região, assim como a fundação e desenvolvimento de Penápolis se devem à cultura do café, à chegada da estrada de ferro e aos imigrantes. Devemos lembrar, ainda, dos Franciscanos que foram atuantes, não só no processo da fundação, mas, sobretudo, no planejamento físico da cidade e nas iniciativas sociais.

Ana Maria Pereira Franco

CARACTERÍSTICAS GERAIS DE PENÁPOLIS

Vista aérea de PenápolisPENÁPOLIS
: fundada em 25 de outubro de 1908.
Área: 710 Km².
Longitude
: 50.04.39 W.
Latitude
: 21.25.11 S.
Altitude
: 416 m.
Temperatura Média Anual
: 25° C
Hidrografia
: Rio Tietê; Rio Feio; Ribeirão Lageado; Ribeirão Bonito; Ribeirão Coroados; Córrego Grande; Córrego Água Limpa e Córrego Maria Chica.
Habitantes
: 52.433.
Comarca
: Alto Alegre; Avanhandava; Braúna; Glicério e Barbosa.
Solo
: Latossolo Vermelho Escuro – LE; Latossolo Vermelho e Amarelo _ LV; Podzólio Vermelho e Amarelo – PV; Areia Quartzosa – AQ; Lifólicos _ LI e Hidromórficos – HI.
Limites
: Ao norte com o município de Planalto; ao sul com o município de Alto Alegre; a oeste com os municípios de Braúna e Alto Alegre; a leste com os municípios de Avanhandava e Barbosa. (Dados conferidos em 07 de julho de 1998).

A 500 Km da capital, originalmente habitada pelos índios caingangues e depois por fazendeiros, desenvolveu-se com a cultura do café. Hoje sua economia baseia-se na agricultura e na cana – de – açúcar.

No setor secundário, o município possui duas áreas destinadas à instalação de atividades industriais. Uma, criada em 1980, totalmente ocupada. Outra, localizada no antigo aeroporto com uma área de 26 alqueires, dotada de rede elétrica, água e esgoto, com acesso à rodovia Assis Chateaubriand (SP-425). O setor industrial é responsável por agregar boa parcela da população economicamente ativa do município Também está representado por sindicatos e associações. Palestras , seminários e conferências são, frequentemente, promovidos pela Prefeitura local, através da Assessoria de Indústria, Comércio e Turismo, que implantou o PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) para criar bolsa de empregos e qualificar trabalhadores.Penápolis, foi desde o início, muito bem planejada nos seus aspectos físicos. Hoje conta com uma Empresa Municipal de Urbanização _ EMURPE. Fundada em 1984 , exe-cuta obras, presta serviços e realiza atividades que visem a melhoria da qualidade de vida. Mantém uma política habitacional em parceria com os governos Federal, Estadual e Municipal. Desenvolve projetos ligados a todos os setores do município.A cidade é abastecida pelo Ribeirão Lageado. O tratamento dessa água é efetuado em uma estação com capacidade de 210 litros/segundo, possuindo 100% de água tratada e servida a toda população. Possui laboratórios químico e bacteriológico próprios, onde são efetuadas análises diárias com aparelhos com-putadorizados, permitindo resultados precisos e confiáveis. Isso é feito pelo Departamento Autônomo de Água e Esgoto de Penápolis _ DAEP, que também se encarrega da coleta de lixo, limpeza pública, aterro sanitário e incineração do lixo hospitalar em fornos de temperatura equivalente a 1000°C.

O DAEP mantém um “Centro de Educação Ambiental”, que desenvolve um trabalho de conscientização para preservar o meio ambiente e em especial o Ribeirão Lajeado.

O “Consórcio Ribeirão Lajeado” é formado pelos municípios de Penápolis, Alto Alegre e Barbosa . Foi criado para atuar mais tecnicamente nas atividades de preservação, conservação e recuperação desse rio, evitando erosões através do manejo de solo, que consiste na realização de curvas de nível, bacias coletoras de águas pluviais, conservação de estradas rurais e recomposição da mata ciliar.

A história da educação em nossa cidade iniciou – se em 1909 e nunca estacionou ou retrocedeu. Se hoje se discute a qualidade do ensino, não é por razões locais. Penápolis atualmente conta com atendimento total em todos os níveis de escolaridade e para todas as idades. Conforme informações cedidas pela Delegacia de Ensino, Penápolis tem hoje , cinco pré – escolas e sete escolas de 1º e 2º graus particulares, oito escolas estaduais de 1º grau e duas de 2º grau, além de uma profissionalizante de 2º grau e duas municipais de 1ª a 4ª séries.

O Deptº Mun. de Educ. mantém 890 crianças de 04 meses a 06 anos e 11 meses em creches , outras 800 na faixa dos 7 aos 14 anos nos barracões comunitários em período oposto ao da escola regular, além das 17 EMEIS (Escolas Municipais de Educação Infantil), atendendo um total de 1504 crianças de 04 a 06 anos. Diariamente são servidas 13000 merendas, na padaria são produzidos 4800 pães/dia. O Serviço de ensino fundamental _ SUPLETIVO _ mantém 19 salas totalizando 515 alunos. O transporte de alunos da zona rural, além de atender 800 alunos residentes no bairros próximos ao município de Penápolis com 21 linhas, atende também com serviços extras a todas as instituições educacionais e filantrópicas, além de eventos culturais e esportivos. Conforme censo de 1991, o índice de analfabetismo na faixa dos 11 aos 14 anos era de 3,6%, acima dessa idade chegava a 12,2%. Os dados estatísticos de 1996 estão para serem tabulados pelo IBGE local.

O esporte conta com o Departamento Municipal que atende cerca de 1800 crianças de ambos os sexos, tanto na fase de iniciação como de aperfeiçoamento nas várias modalidades. Instituição que desenvolve diversos projetos de incentivo ao esporte, atua no combate às drogas através da prática esportiva. Executa projetos de promoção do atleta e da cidade através do esporte.

A área da saúde conta com três hospitais, sendo um psiquiátrico, 73 consultórios médicos, 43 dentistas, 03 clínicas veterinárias, além da Zoonose que trata da proteção dos animais. Conta com 03 postos de saúde e desenvolve um serviço preventivo junto as comunidades carentes, através de visitadores sanitários. A pulverização periódica contra o mosquito transmissor da dengue é feito pela Sucen.

Penápolis, hoje reconhecida como pólo cultural da região, é sempre muito sensível a qualquer iniciativa dessa natureza. Seus movimentos atraem sempre pessoas das mais variadas regiões. A principal referência da cidade está no cultural.

O teatro, presente na história da cidade desde a década de 1920 com a Sociedade Espanhola, revelou-se de grande valor. O TAE (Teatro Amador Estudantil) obteve vários prêmios, tanto a nível regional (Paulo Pontes) como a nível estadual (Governador do Estado). Somente a peça “NOVO” arrebatou 14. Em todo outubro acontece um festival de teatro amador, que envolve toda a região. Nas áreas dasartes plásticas , Penápolis vive uma dupla realidade: de um lado já realizou cinco salões com a participação de artistas de diversos países. De outro, abriga artistas premiados e detentores do reconhecimento até a nível internacional. Na música, Penápolis é atuante desde os primórdios. Em todos os tempos a cidade pôde contar com profissionais de extrema capacidade, que circulam nos meios internacionais. Através de convênios, a cidade já sediou encontros de corais e o Festival Nacional de Piano. Hoje conta com aproximadamente 04 escolas de música. Uma cidade com pouco mais de 50 mil habitantes, conta com três museus atuantes, dinâmicos e ricos em acervos: O Museu do Sol, fundado em 1972, único na América Latina em arte primitiva e ingênua; O Museu Municipalde Folclore, fundado em 1991, começou como um Centro de Folclore criado pela FUNEPE ( Fundação Educacional de Penápolisem1974, o único em folclore num raio de 150 km. E, finalmente, oMuseu Histórico, criado em 1958, específico na história social, política e cultural do município. Uma das quatro cidades brasileiras que possui uma Galeria Itaú. Instalada há 15 anos, mensalmente apresenta uma Mostra de Artes Visuais, mantém parcerias com as demais unidades da área em projetos culturais destinados à comunidade penapolense, além dos ciclos de vídeo sobre a cultura brasileira, projetos musicais e eventuais oficinas. Duas escolas de ballet: uma de caráter particular atende alunos na faixa de 3 a 18 anos e outra, mantida pela Prefeitura, que trabalha o clássico e a dança contemporânea. A Biblioteca Municipal é constituída de 21.700 volumes, uma videoteca com 261 fitas e uma fonoteca 304 CDs. Atualmente pleiteia um espaço tecnicamente mais adequado, não só para abrigar seu acervo, como também para melhor desenvolver suas ações culturais. A FUNEPE mantém uma biblioteca com 13.036 livros distribuídos nas religião, ciências sociais, ciências aplicadas, literatura, artes, história, geografia e ciências puras. Tudo num espaço condizente com a preservação do acervo e atendimento ao público.

A Imprensa se constitui de três jornais, dos quais dois são diários : o Interior e o Diário de Penápolis e um bi-semanal : O Regional, além de quatro emissoras de rádio: Difusora/Icatu – AM e Líder e Eldorado -FM.

CAINGANGUES
HABITANTES DA MATA

* – A grafia desta palavra pode ser encontrad a em duas diferentes formas: caingangues e caingangs

Tapuias dolicocéfalos de linguagem travada, habitantes do oeste paulista, com vocabulário de mais ou menos quinhentas palavras. Denominados “silvícolas bravios”.
O oeste paulista, até início deste século, era considerado uma “região habitada por índios de difícil contato.”
O último reduto dos caingangues era o vale do Aguapeí. Ali tinham suas aldeias e mantinham contatos com as tribos do Paraná e Santa Catarina. Isso até a abertura de estradas transversais cortando o sertão até as barrancas do Paraná. Essa área representava 1/6 do estado, 40.000 km quadrados, recobertos de florestas virgens.
A aproximação do homem compreende algumas formas: “Batidas” ou “Dadas” dos bugreiros ou grileiros; comissões estaduais formadas por geógrafos e geólogos; padres missionários e finalmente, a estrada de ferro N.O.B.

“Os caingangues, enquanto habitantes do interior do Paraná eram pacíficos. Mas, após o extermínio das expedições Jesuísticas, dão expansão aos seus sentimentos de crueldade.”

Fausto R. de Barros

Na Segunda metade do século XVIII, adentram o estado de São Paulo formando uma população de aproximadamente 5000 índios.

“Não se sabe com precisão, quando chegaram, porque em 1628, segundo anotações de D. Luiz Céspedes Xeria, eles não estavam por aqui. Em 1773, o brigadeiro Sá e Faria já registrava a presença dos mesmos na colônia Iguatemi à margem esquerda do rio Paraná, entre o Aguapeí e o Peixe.”

Fausto R. de Barros

SALTO DO AVANHANDAVA
“AONDE CORREM OS HOMENS”

Salto do Avanhandava - ponte pêncil
Salto do Avanhandava – ponte pêncil

O rio Tietê, confluente do Paraná, nasce junto do mar e corre para o interior, como num desafio, servindo de caminho para a expansão paulista. O Salto do Avanhandava era um acidente geográfico, no leito desse rio, que fazia parte da história econômica e cultural da região. Obstáculo gigantesco para os navegadores , pois, obrigava as expedições a descarregar as canoas e vará-las por terra, às vezes. at é 700 metros, para vencer um desnível de apenas 12. Segundo escritos do primeiro diretor da Colônia Militar, Capitão Manoel Geraldo do Carmo Barros, o Salto, de 32 léguas de extensão, se constituía de sete ribeirões e dez córregos.

“O Salto acabou, mas o Tietê continua lá, ainda vivo, atuante, motivando, inspirando, desafiando os artistas e estudiosos da terra, para que se entreguem à proeza de fazê-lo imortal.”

Orentino Martins.

Hoje, a Nova Avanhandava, aproveitando o potencial energético do baixo Tietê, se constitui numa Usina Hidrelétrica com capacidade de 302,4 megawates, cujo reservatório ocupa uma bacia hidrográfica de 62.300 Km². A barragem tem 2.038 metros de comprimento, sendo 308 em concreto e 1730 em aterro.

Cronologia de ocupação:

1553- incursão militar espanhola sob a chefia do Capitão Martinez de Irala;
1628- do primeiro documento cartográfico paulista consta o registro do Salto;
1769- jornada fluvial sob regime comercial e militar registra o varadouro do Avanhandava;
1826- a expedição do Barão de Langsdorf (Cônsul da Rússia) registra a chegada ao Salto em 18 de junho;
1858- criada pelo decreto 2126 do Imperador do Brasil e assinado pelo Marquês de Olinda, a colônia militar do Avanhandava;
1915- aprovada a lei nº 30 na Câmara Municipal de Penápolis, que propunha o fornecimento de Força e Calor por Eletricidade à Iluminação Pública e Particular da cidade;
1917- Iluminação Pública em Penápolis;
1919- Iluminação Pública em Avanhandava, Penápolis, Glicério, Coroados, Birigüi e Araçatuba;
1921- Inauguração de 1ª Usina Hidroelétrica de 1000 CV;
1947- Inauguração da 2ª Usina Hidroelétrica de 42.600 CV;
1982- Inicia-se em 15 de agosto a represa do Salto. Cria-se a Usina Nova Avanhandava.

FASES DO PIONEIRISMO
O
primeiro empreendimento
para a colonização dos campos de Avanhandava, foi em 1767, quando o Capitão Geral da Província de São Paulo, Luis Antonio Botelho de Souza Mourão, instala nas imediações do Salto, uma colônia agrícola, para dar subsistência às tropas oficiais, que se dirigiam para a fronteira do Mato Grosso.

“Os primeiros aqui que encontrei foram os Capuchinhos, Amadeu Soliani, Joaquim Soares, a Loja do sol, Chiquinho e Emílio, os irmãos, né. Chiquinho do Sol era comerciante, o Emílio era o pai do Dr. Ramalho Franco, é…os dois irmãos da Loja do Sol.”

João José de Oliveira

Salto do Avanhandava – começo do século XX

 

Em 1842, algumas famílias saíram de Pinhuy (M.G.) para Descalvado e, posteriormente, pelos afluentes do rio Tietê, se apossando de terras devolutas e trazendo manadas de gado caracu. Em 1886, essas famí-lias se confrontaram com os índios nativos e tiveram que fugir para a margem direita do Tietê, hoje Ubarana. São elas: Goulart, Castilho, Ferreira de Souza, Pinto Caldeira, Corrêa, Pereira Coelho, entre outras. Em 1904, os herdeiros dessas terras se uniram a Fernando Ribeiro de Barros, que chegara com a família em 1902, e voltaram para retomá-las. (BARROS, Fausto Ribeiro-Achêgas para a História de Pennápolis – de 1767 a 1848). Finalmente, em 1907, chega a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Vieram também os Frades Capuchinhos, que lotearam as terras, onde hoje está a cidade, construíram o convento e abriram uma sala de aula de ensino gratuito, como determinava o documento de doação das terras, datado de 07 de dezembro de l906 (o original encontra-se no 1º Cartório de São José do Rio Preto).

 

Fazenda de café – 1950

“De hábitos modestíssimos, viveu como quis. No auge do café, anterior à crise de 1929, quando os fazendeiros e até sitiantes começaram a comprar automóveis para ir percorrer aspropriedades, caçoavam do Coronel ainda a cavalo. Respondia calmo: – Quando vocês voltarem a andar a cavalo eu já estarei nele.”

Orôncio Vaz de Arruda Filho, referindo-se a seu pai no livro “Andanças”.

 

“A Maria Chica Velha? Quando nós viemos para cá, ela também estava de saída para lá (Ubarana), logo que nós chegamos ela foi embora. Era uma mulher que tinha uma fazenda aqui…houve uma divisão de terras…não deram um palmo de terra para ela. Ela foi embora.”
Enoch de Paula Ribeiro

“Em 1910, meu pai abriu um filial em Penápolis, que naquele tempo se chamava Santa Cruz do Avanhandava…quando foi em 1914 houve a Grande Guerra, foi uma crise quase que universal, que arrasou desde o comércio, as indústrias, tudo. Então meu pai fechou todas as filiais da noroeste, fechou a de Jacutinga, fechou a de Lins e fechou a de Bauru também, e montou todo o estoque aqui em Penápolis. E junto com o estoque… vim eu.”

Francisco Freitas Franco Chiquinho do Sol

“Vim de Franca para Penápolis em 1918, meu pai já estava por

Terceira série do 1º Grupo Escolar – 1926

aqui desde 1916… o nosso grupo era, naquela época, onde está a farmácia São Luiz (esquina da av. Luiz Osório com a rua Dr. Mário Sabino) ali funcionou o Grupo Escolar. Depois construíram o prédio, em 1919, que é esse atual Luiz Chrisóstomo de Oliveira.”
Jerônima Cápua Figueiredo

FATORES DA FUNDAÇÃO

ESTRADA DE FERRO

<font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif"><i><font size="1">Estação Ferroviária de Penápolis - 1907</font></i></font>
Estação Ferroviária de Penápolis – 1907

Autorizada em 1890 a construção da ferrovia Uberaba – Coxim. Alterada em 1904 para Bauru – Cuiabá, que, durante o processo de instalação, passa a Bauru – Corumbá. Adentra os sertões da noroeste paulista, buscando a produção e trazendo os estrangeiros para trabalhar. As cidades vão se formando. Havia pressa! As matas foram violentamente desbravadas. Os índios, que sobreviveram, afastaram-se a medida que a estrada avançava.
Índios, que sobreviveram, afastaram-se a medida que a estrada avançava. Os trens cortavam as fazendas, recolhendo a produção para comercializar nos grandes centros urbanos. Esse meio de transporte serviu à região oeste de S. Paulo e ao sul do estado do Mato Grosso. A primeira era formada por 27 municípios numa área de 26.500 km quadrados. No Mato Grosso (hoje do Sul), a região envolvia 13 municípios numa área de 239.000 Km quadrados. A Estação de Penápolis foi inaugurada em 1908, depois das estações de Bauru, Cafelândia, Lins, Promissão e Avanhandava.

LAVOURA DE CAFÉ

       Essa cultura compreende três momentos no estado de S. Paulo:
O primeiro determinado pelo regime escravocrata, no qual se baseia a economia da época;
O segundo representa a substituição dessa mão de obra pelo trabalho do estrangeiro, à princípio, do italiano;
Finalmente, o terceiro período compreende a emigração de S. Paulo para o norte do Paraná, em função do aproveitamento da mão de obra nacional. Outro fator importante nesse contexto é a abertura da noroeste paulista e sul do Mato Grosso.        Oportunidade para os anteriormente empregados das fazendas, tornarem-se pequenos proprietários de terras. De um lado, o interesse no povoamento, de outro, a realização de um sonho.
Até então, a zona noroeste paulista era conhecida somente como “território ocupado pelos índios”. Por isso deve-se à cultura do café a abertura destas terras. Os antigos serrados foram substituídos por plantações de milhões de pés de café. Com eles as rodovias, os imigrantes, a estrada de ferro e, consequentemente, a riqueza e o poder político, pois a região se fazia representar na política federal e no governo do estado.
Em Penápolis, os imensos cafezais eram entremeados por lavouras de cereais que muito contribuíram para a arrecadação de impostos.

PRIMEIRA FASE DE IMIGRAÇÃO EM PENÁPOLIS

Extração de madeiras para confecção de dormentes utilizados na construção da Estrada de Ferro no comceço do séc. XX.

A necessidade de expandir a lavoura cafeeira paulista, no século XIX, coincidecom a crise econômico – social da Europa ( causada pela explosão demográfica) e do Japão (pelas guerras constantes com demais países asiáticos). A oligarquia agrária paulista promove um conjunto de medidas, que viabiliza o processo migratório para o nosso estado.Chegam famílias inteiras, para viver num país do qual mal ouviram falar. Foram transformando as cidades nos seus aspectos físicos. Seus costumes, religiões, conhecimento de novos ofícios e técnicas, seus hábitos alimentares… tudo isso se misturando aos da terra. Hoje, somos um pouco de cada etnia. Alimentamos valores, sem saber a origem. O folclore brasileiro representa muito bem essas variações culturais.

“O Brasil nasce e cresce como povo novo, afirmando cada vez mais essa característica em sua configuração histórico – cultural. O assinalável no caso brasileiro é, por outro lado, a desigualdade social, expressa racialmente na estratificação pela posição inferiorizada do negro e do mulato. E, por outro lado, a homogeneidade cultural básica, que transcende tanto as singularidades ecológicas regionais, bem como as marcas decorrentes da variedade de matrizes raciais, como as diferenças oriundas da proveniência cultural dos distintos contigentes.”

Darcy Ribeiro – O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil.

Pode-se observar, mais ao sul do país, a influência germânica, não só na arquitetura, mas também na culinária e na música. Nota-se, nitidamente, a influência italiana, japonesa, judaica, coreana, portuguesa e árabe em alguns bairros da cidade de S. Paulo. Em Salvador, observa-se a forte influência negra na cultura musical, na moda e na culinária e portuguesa na arquitetura, assim como em algumas cidades do estado de Minas Gerais, do nordeste , do norte e do litoral fluminense.
O loteamento e venda das terras dos grandes latifúndios atraíram muitas colônias de agricultores brasileiros e estrangeiros. Assim, iniciava-se um novo e revolucionário ciclo econômico, na região noroeste de São Paulo: as lavouras de arroz, café, milho, cana-de-açúcar e também a pecuária. Abriram-se, então, para essa zona, os mais promissores horizontes.
No início desse século, essa região tinha uma renda per capita só comparada à dos EUA, Canadá, Austrália e maior que as do Estado e da União.
O Resgate da memória dos estrangeiros, que originaram a atual comunidade penapolense, representou uma pesquisa de campo junto aos vários grupos étnicos, onde se verificavam as origens, as culturas, as condições econômicas em que se encontrava o país, na ocasião da emigração, as condições e o roteiro da viagem, o ponto de desembarque, a forma de distribuição para as frentes de trabalho e, finalmente, a adaptação à realidade do Brasil. Esse trabalho resultou em 124 entrevistas gravadas em fitas cassetes, no período de 3 anos. Todas transcritas e colocadas à disposição de pesquisadores. Desenvolvido em parceria com a Funepe (Fundação Educacional de Penápolis), sob a orientação das Macedo e de Antropologia, Maria Helena Altenfelder Waldemarim.O primeiro grupo a ser assediado pelo Museu foi o NIPÔNICO.

IMIGRAÇÃO JAPONESA

Inicialmente, trabalharam na lavoura de café. Com a queda desse grão, optaram pela policultura e horti – granjeiros. Hoje, atuam em todas as áreas econômicas do município.
Aportados em Santos, a partir de 1908, seguiram de trem, para várias regiões do Estado de São Paulo, sul de Minas Gerais e norte do Paraná. Das famílias que se fixaram em Penápolis, algumas estiveram antes em outras regiões do estado e norte do Paraná. As que para cá vieram se instalaram, inicialmente, nas fazendas Chatembled em Cafelândia, na Suissa em Lins, na Degredo em Avanhandava e na Canta Galo em Penápolis.
Habitantes de uma área, cujo clima é, de modo geral, ameno e a alimentação à base de cereais, frutas e hortaliças, peixe de água salgada, temperos picantes, mas pobres em gorduras. Tiveram que se adaptar ao clima tropical, onde a alimentação é rica em gorduras, farináceos, carnes vermelhas e o peixe é de água doce. Isso gerou todos os tipos de desarranjos orgânicos. Se, no Japão, a assistência médica era regular, aqui era nenhuma. Sequer havia farmacêutico na zona rural, forçando-os a descobrirem, de forma empírica, a cura pela ervas da região.
No Japão, a religião era budista, oriunda da Índia e introduzida no país, via China e Coréia, enquanto que no Brasil as religiões se entrechocavam. No começo do século, podiam-se observar elegantes templos protestantes, ao lado de igrejas católicas. Os japoneses apenas se radicavam na nova terra. “Ingressaram ao catolicismo, atraídos pela suntuosidade dos templos e magia dos ritos, que os fazia lembrar da religião oriental.” Embora muitas famílias, hoje por convicção, continuem adeptas do catolicismo, outras voltaram às suas origens através da Sei – Sho – No – Iê, da Messiânica e do próprio Budismo. Independentemente da religião, todos têm, em suas casas, um oratório particular, onde cultuam, diariamente, seus mortos. Ou seja, mesmo absorvendo nossa cultura, preservam suas tradições.
A alfabetização era primordial, para que seus filhos não enfrentassem as mesmas dificuldades, que eles com o idioma. Os primeiros imigrantes tentavam se comunicar através de gestos e de sons, que muitas vezes não eram compreendidos. Esse isolamento gerava uma série de outros problemas, que os levavam a um estado agudo de angústia e depressão, que terminava, em casos extremos, na morte.
Por isso, a primeira medida que tomavam, após construírem seus núcleos, era a construção de uma escola, ainda que precária. Solicitavam da prefeitura umaprofessora, a quem garantiam abrigo e alimentação.

Família de imigrantes japoneses – Kengi, Tsuneikui, Matsu, Tsunezo, Massu (família Arikava) – 1062.

“A casa é diferente, lá era de chão, não era de tijolo, aqui era de barro, onde

eu cheguei. Lá era de madeira com divisões de biombo. Todas eram iguais, no mesmo estilo, mesmo desenho.”

Hisako Serisawa

“Chegamos em 1933. No Japão plantávamos flores e os irmãos mais velhos vendiam na feira da cidade de Saporo, estado de Hokaido. Aqui era café. Lá era frio o ano inteiro, durante 6 meses era só neve, de dezembro a fevereiro eram os meses mais frios.”

Kyoko Shimada

“Eu vim porque meu pai veio, ele veio para ganhar dinheiro, fazer fortuna e voltar para o Japão. A intenção era ficar uns 10 anos aqui e depois voltar.”

Hatsumi Yamanouki

“Aconteceu uma coisa engraçada, era 7 de setembro e havia festa em todo o porto, eles pensaram que os foguetes, rojões, eram a recepção e ficaram encantados de início, mas quando descobriram, que não eram para eles, ficaram frustrados…daí começou a realidade. Viemos de Yokohama para Santos. Uns imigrantes nos esperavam. Fomos para “Rinso” (Lins). Minha mãe era professora lá, aqui pegou na enxada”.

Mitsuyuki Kono

Escola para japoneses
Escola construída por japoneses na zona rural, em 1950.

“Na imigração tinha que vir casado, mas eu não vim como imigrante, vim num navio cargueiro. A imigração já estava no fim, em 1930. Para falar a verdade, eu fugi da guerra, eu já sabia que ia ter.”

Haruo Kondo


“No tempo da guerra (Segunda Grande Guerra Mundial 1939-1945) morava no sítio em Braúna. Foi muito difícil. Japones, coitado, não dava para viajar e nem para conversar também.”

Torahito Yamanaka

…a intenção era trabalhar, para ganhar muito dinheiro e assim voltar, mas o sonho acabou. Pois o salário era muito pouco, eu era bóia – fria e não tinha condições nenhuma. Aos poucos foi melhorando. Eu tinha vontade de voltar ao Japão para rever meus pais e irmãos, mas era tarde demais. Todos já haviam falecido. Só restava eu. Agora o meu pensamento estava voltado para minha esposa e filhos, eu tinha que lutar por eles aqui mesmo.”

Tokuji Toma

IMIGRAÇÃO ITALIANA

Família Buranello

Imigrantes italianos – 1944 – Família Buranello, aniversário de 60 anos de Antonio Buranello. Em pé: 1-Henrique Ambrósio, 2-Emernegildo ambrósio, 3-Luis Ambrosio, 4-Leonardo Ambrósio, 5-Oscar Franzoi, 6-Antenor Buranello, 7-Nestor Buranello, 8-Ernesto Buranello, 9-Ruds Buranello, 10-Claudio Buranello, 11-Guido Buranello, 12-Pedro Mian, 13-Pompeu Ambrósio, 14-Luis Franzoi, 15-Zulmira Franzoi, 16-Alfredo Buranello, 17-Gracinda, 18-Raymundo Buranello, 19-Atílio Buranello, 20-João Buranello, 21-Irene Buranello, 22-Isabel, 23- Lairce, 24-Antonio Buranello Filho. Sentados: 25-Basílica Buranello Mian, 26-Claudeth, 27-Laura, 28- Maria, 29-Adelina Buranello Ambrósio, 30-Olga, 31-Antonia, 32-Maria Buranello Franzoi, 33-Alzira, 34-Laudizio Brinholli, 35-Antonio Buranello, 36-Dirce Brinholli, 37-Elisa Preto Buranello, 38-Nair Torquete Buranello, 39-Maria Torquete Buranello, 40-Djalma Buranello, 41-Irma Esperandio Buranello, 42-Gerson Buranello, 43-Julia Buranello, 44-Inês Buranello, 45-Guiomar Buranello, 46-Lahir, 47-Catharina Paula Buranello, 48-Laura

Acordo entre os governos ITALIANOe brasileiro. Enquanto o primeiro selecionava a mão de obra, o outro custeava as despesas de viagem e distribuía as famílias em novos empregos.
1880: às vésperas da Lei Áurea, o preço dos escravos era elevadíssimo. Ficou mais barato importar mão de obra da Europa. Ocorrem, então, as grandes correntes migratórias para o Brasil. Até 1910, os italianos tinham liderança no processo migratório. A maioria desembarcava em Santos e se alojava na Hospedaria dos Imigrantes. Entre 1891 e 1900, entraram no país 1.129.000 trabalhadores europeus, dos quais 690.375 eram italianos.
As famílias, que vinham para o Brasil, quase sempre pertenciam às camadas mais pobres da população européia. Eram camponeses, artesãos, operários, pequenos comerciantes, apenas um ou outro homem de negócios.
Inicialmente, as famílias eram encaminhadas para as fazendas de café. Porém, a relação com os patrões era permeada pela violência da tradição escravocrata e fazia com que muitos imigrantes, frustrados, voltassem aos seus países de origem depois de alguns anos e outros tentassem a sorte nas cidades.
Esses se tornavam operários de indústria ou empregados do comércio.
“Os que ficaram nas fazendas se viram totalmente isolados, por duas razões: as enormes distâncias que separavam umas das outras e a particular conformação das mesmas – campo fechado – no qual dificilmente encontrava eco qualquer manifestação.” Por isso, qualquer iniciativa de organizar movimentos de trabalhadores na área rural era inviável, as manifestações eram isoladas e não tinham continuidade.
Por volta de 1910, os grandes fazendeiros já tinham consciência do significado da mão de obra estrangeira. Com o trabalho livre, a produção do café cresceu assombrosamente. Eram necessários 300.000 trabalhadores para cuidar do café e havia 750.000 pessoas. O excesso de mão de obra prejudicou ainda mais os imigrantes. Criou-se, então, uma nova política de colonização por pequenas propriedades, como no sul do país, porém em menor proporção. Criaram-se as colônias agrícolas, que mais tarde deram origem às vilas e cidades. Se a intenção era formar o operariado rural, o que realmente aconteceu foi a formação de pequenos proprietários.
O noroeste do estado, zona próspera no começo do século e a fertilidade das suas terras para a produção do café ( maior produto da balança financeira da época) gerava emprego aos imigrantes, entre eles os italianos. Esses não eram os maiores apreciadores das zonas novas. Mais afinados com os grandes centros urbanos e industriais, ou com as velhas zonas dos latifúndios cafeeiros, se avolumavam em São Paulo, Ribeirão Preto, São Carlos, Mogiana e Paulista. Poucos vieram para esses lados.
Com a instalação da estrada de ferro, o movimento migratório se volta para essa região. Manoel Bento da Cruz, possuidor de grande extensão de terras, atrai trabalhadores, pagando-os com terras, com o intuito de fixá-los por aqui. Instalada a nova estação, desembarcam dos trens muitas famílias, a fim de tornar-se proprietários, ainda que pequenos.
Desses imigrantes, que para cá vieram, uns foram para a zona rural e, depois da queda do café, se dedicaram à policultura e à pecuária. Os que ficaram na cidade, se dedicaram ao comércio – bares, pensões, empórios, açougues – e pequenas indústrias – bebidas, móveis, calçados, curtumes. Algumas se modernizaram, outras desapareceram. Umas pertencem a outros grupos e outras já nem existem mais. Ao contrário das fazendas, que na grande maioria, continuam nas mãos das mesmas famílias que as abriram.

Sede da Fazenda Antonio Veronese

Sede da fazenda de Antonio Veronese – 1ª metade do século XX .

“…e hoje está só, sob a intempérie do tempo e da pátina. Só, mas sempre altivo e personalizado”

Maria Cândida Virgílio Galli

“Meu pai queria se livrar de mandar meus irmãos para guerra…ele amava mais os filhos do que a Pátria. Pois todos os filhos estavam moços, no ponto de ir para a guerra.”

Fani Gallinari Tondato Gallinari

“Quando vieram para Penápolis, em 1916, o avô do meu marido Orestes comprou uma fazenda no bairro do Paraguai…ele era muito alegre e apaixonado por reuniões festivas… ele vivia naquele casarão com todos os netos, genros e noras e todos os sábados ele fazia questão de fazer bailes. Os que não dançavam, jogavam baralho…com a morte do avô, a avó Ângela passou a ser a matriarca da família. Faleceu em 1940 e depois, os filhos dela compraram um sítio no Saltinho do Coroado. Os meus tios ficaram no Paraguai. Mais tarde a família se espalhou por vários lugares. Muitos foram para o Paraná, outros para S. Paulo e outros se encontram aqui.” Clotilde I.T. Pásseri “Chegaram ao Brasil em 1900, desembarcaram em Santos… de Jaú, eles vieram de trem até Avanhandava, porque o trem não chegava aqui em Penápolis… trabalharam numa olaria do Elesbom até poderem comprar, foram para a fazenda, abriram, plantaram café, montaram uma olaria, fabricaram tijolos para construir as casas dos colonos, depois puseram uma serraria muito grande, puseram transformadores e iluminaram toda a fazenda…tinha a casa muito grande, muito boa, morava com toda a família. Vovô voltou para a Itália para vender o resto das propriedades que tinham deixado, mas ficou doente e morreu por lá.”

Olga Rillo

“Meus familiares permaneceram por mais de 50 anos em uma só fazenda. Viviam isolados da civilização por completo. A relação entre patrões e empregados era permeada pela violência da tradição escravocrata… meu pai, Giácomo, aprendeu a ler e a escrever com auxílio de um colono na própria fazenda. Por volta de 1915, fugiram e em 1917 chegaram, pela estrada de ferro, a Penápolis e montaram o Curtume Canta Galo.” José Paro “Vieram da região de Treviso – cidade de Rieze – em 1892. Eram em quatro irmãos, desembarcaram em Santos, ficaram no alojamento dos imigrantes em S. Paulo. De lá vão trabalhar em várias fazendas na região de Capivari. Em 1904, vão trabalhar para os irmãos Waldemarin que os trazem para Penápolis. Martim tinha um filho, Giovani, que ficou na Itália estudando para padre, era o frei Domingos de Rieze – era padre e engenheiro.” Severino Torrezan “Em 1924, o papai comprou o primeiro Fordinho, todo entusiasmado, esse Ford veio de trem aqui para Penápolis. E todo entusiasmado ele queria ir a Capivari de Fordinho e nós levamos 4 dias de viagem. O primeiro dia , nós fomos de Penápolis a Rio Preto – hoje a gente vai em uma hora. O segundo dia foi de Rio Preto a Taquaritinga – hoje se vai em meia hora. O terceiro dia foi de Taquaritinga a Leme e o quarto dia de Leme a Capivari e hoje você vai direto a Capivari em menos de quatro horas.”

Mário Waldemarin

“Os italianos eram sábios, sabiam tirar vantagens das dificuldades. Da ausência de produtos, uma substituição vantajosa”.

Prof. Fausto Ribeiro de Barros

 

IMIGRAÇÃO ESPANHOLA
Carnaval da Sociedade Espanhola

Carnaval da Sociedade Espanhola – 1938 Sentada:Floripes Fernandes. Em pé:1-Isabel Serrano, 2-Olga Moreno, 3-Pilar Fernandes, 4-…, 5-Joana Serrano.

Com a proclamação da República, em 1889, boa parte da responsabilidade de trazer imigrantes é passada aos estados. Os estrangeiros residentes em 15 de novembro eram considerados cidadãos brasileiros.
       Os paulistas haviam fundado a Sociedade Promotora de Imigração, o meio pelo qual assumiam a tutela da política de colonização e imigração. Através dela e graças a riqueza criada pelo café, os fazendeiros paulistas dão continuidade à importação de braços para a lavoura.
Entre 1889 e 1930, o número de imigrantes em S. Paulo é de 2.033.654, representando 57,7% do total nacional. Desse, um contingente de 374.658 era de origem ESPANHOLA. Na década de 1910, esse grupo representava 30,30% da imigração, invertendo essa posição na década seguinte, caindo para 13% do total.
Coincidentemente, entre 1917 e 1924, os Estados Unidos da América do Norte limitam drasticamente a imigração, enquanto que no noroeste do estado de S. Paulo, a estrada de ferro avançava para Corumbá, plantando cidades, que nasciam com o surgimento das fazendas de café. Enquanto as estradas de ferro se estendiam para o oeste, o imigrante espanhol, não se adaptando ao trabalho do campo, faz o percurso inverso. Vai ao encontro dos grandes centros urbanos, onde dedica-se a atividades comerciais ou industriais, aos poucos formando seu próprio campo de ação. Sobressaíam-se na indústria têxtil, no mercado cerealista, de frutas e óleos, como revendedores, comercialização de ferro-velho e hotelaria. Um pequeno contingente se dirigiu para a noroeste.
Em 1925, 2,9% da população penapolense era constituída de espanhóis, que se concentraram no antigo Bairro Alto – hoje Vila Martins. Ali criaram o Clube Recreativo Hispano Brasileiro – Sociedade Espanhola. Precursores do carnaval em Penápolis, promoviam durante todo o ano bailes, espetáculos teatrais e outros eventos sócio – culturais. Gente alegre e descontraída, não perdia oportunidade de brincar com assuntos ou fatos locais e levá-los à público com o objetivo de chamar à reflexão sobre esses acontecimentos.

 

“Quando eu vinha para a cidade, ficava na casa da minha tia, lá no Bairro Alto – hoje Ginásio de Esportes. A Vila Martins, fizeram depois.” Mercedes Sanches Garcia “A cidade era pequena…tinha como famílias de patrícios: Martin;. Origuela; Caparroz; Duran… são famílias antigas, que ajudaram no desenvolvimento da cidade.”

João Francisco Romera

“O imigrante calculou uma coisa, depois que chegou aqui, ele viu que o vizinho do lado direito falava uma língua que ele não entendia e o do lado esquerdo, outra que ele também não entendia. Então ele desesperou, só não voltou por falta de recursos.”

José Antonio Gualda Martins

“…viemos porque no tempo de guerra que tinha na Espanha, os meus irmãos mais velhos iam ser convocados, por isso vendemos tudo e viemos para o Brasil, prá ninguém nos afastar de casa, prá ninguém perder a vida. Viemos em 1909, chegamos em Glicério em 1915.”

Antonio Cortez Amore

Família Perez

Imigrantes espanhóis – 1925
João Perez, Joana Serrano Perez, Bernardina Perez Serrano, Manoel Perez

 

“Minha mãe tinha de socar o arroz e feijão para comer, coisas que ela não estava acostumada a fazer. Na Espanha, minha mãe tinha empregada, pajem para nos cuidar e aqui, ela é que era empregada”.

Sara Herradon Blasques

“Nunca andávamos descalças, o nosso calçado nós fabricávamos, era de corda”.

Encarnacion Gabarron Perez Pastora de Ovelhas
natural da Província de Múrcia


“Chegaram aqui no Brasil e foram para Jaboticabal e lá ficaram 7 anos, depois vieram para Penápolis. Vieram plantar café na fazenda do Sr. João Rodrigues Manzano, na fazenda Jacutinga…assim eles juntaram dinheiro e compraram terras aqui no bairro do Paraguai.”

Tereza Aparecida Caparroz Castilho

“Certo dia, convidei minha senhora para dar um passeio pela cidade, não havia ruas e sim uns trilhos que dava para passar(Glicério – 1913). Lá, andando, chegamos a Igreja que era um quartinho pequenino, o qual servia de sino uma enxada velha. Lá íamos rezar o terço em companhia do Sr. João Viole, Manoel Inácio, o Saulo Bim, Pedro Storte, etc… Lá, naquela capela foi batizada a minha filha mais velha, Josefa, que por sinal, ainda e lembro bem, que não tinha sal e o padre teve que buscar emprestado no vizinho mais próximo.”

Antonio Reche

IMIGRAÇÃO ALEMÃ
Alemães - Família Hecht

Alemães – Família Hecht – 1919 1-Roberto, 2- Otto, 3-…(amiga da família), 4-Sofia, 5-Adolpho junior, 6-Frederico. Originários de região, na Austria que, durante a primeira guerra, foi dominada pela Alemanha – Sudeto.

Após a Independência do Brasil, em 1822, D. Pedro I continua a política de colonização, iniciada por D. João VI, trazendo ALEMÃES para o Rio Grande do Sul em 1824, para o Paraná em 1827, em 1829 para São Paulo. Outras colônias alemãs são formadas em Santa Catarina e Espírito Santo. Porém, uma lei de 19 de dezembro de 1830, suprime os créditos à colonização, que se reduz consideravelmente, definindo a primeira metade do século passado, como insignificante nesse sentido. Por isso o aumento lento da população brasileira nesse período, enquanto o resto do mundo entrava numa fase de grande expansão demográfica.
Até o final do Império, a população brasileira era formada, quase que totalmente por índios, africanos e portugueses. Em 1850, o Brasil tinha apenas 7 milhões de habitantes. Contudo, a partir daí, o crescimento populacional, antes lento, se modifica radicalmente. O café, cultivado desde o séc. XVIII, entra em rápida expansão e se estende por todo o Rio de Janeiro, Vale do Paraíba e interior de São Paulo. As estradas de ferro acompanham esse avanço, surgem as exportações e agências bancárias. Tudo isso torna mais prementea necessidade de braços.
O contingente de imigrantes alemães é duramente atingido, durante a Primeira Guerra Mundial, recomeçando esse movimento por volta de 1920 até a crise mundial de 1929, que dá início à redução em proporções mínimas, conforme a nova política adotada por Getúlio Vargas, que acentua as migrações internas entre os diferentes estados da União.
A substituição da mão de obra escrava representou uma revolução no sistema empregatício no Brasil. Surge uma nova classe social através da organização do proletariado rural, com suas reivindicações específicas e um comportamento político próprio.
A imigração germânica é modesta, comparada à portuguesa, italiana e espanhola, mas trouxe grande benefícios para o Brasil. Nem todos os alemães eram de origem camponesa, muitos eram trabalhadores de indústrias, sapateiros, ferreiros, alfaiates, vidraceiros e até músicos ambulantes, pintores e professores. Algumas famílias, que vieram como imigrantes alemães, na verdade eram austríacos ou checoslovacos. Em função das guerras e, consequentemente, das tomadas territoriais, alguns países da Europa sofriam alterações nos seus limites e isso interferia na documentação dos seus emigrantes. Por isso, temos, em nossa cidade, famílias tidas como italianas ou alemãs que, na verdade, tem outra origem.
Em Penápolis, ela é pouco representativa em número, mas atuante no campo político e sócio – econômico.

“Viemos para o Brasil por não poder comprar terras na Alemanha, por motivos políticos. Éramos de Braunau – Sudeto Alemão.”

Hugo Anton Kühnes

“Eles partiram do porto de Waner e viajaram durante 93 dias…um dos filhos nasceu a bordo…chegaram em Santos em 1912.”

Arthur Alfredo Ratdazt

“Nos dois lados do córrego do Baixote, perto de Braúna, havia uma colônia de alemães que vieram no mesmo navio. Entre eles estavam: Lorenz Reuter, que posteriormente foi dono da agência Chevrolet, em Penápolis; o pai de Erwin Bobel. Eram procedentes da região mais povoada e industrializada da Alemanha, o RUHR….a cidade de Braunau faz parte dos Sudetos e a região é alemã. Prova que a população, 3,5 mi-lhões de alemães, após a 2ª Guerra foi, em parte eliminada e compulsóriamente expulsa para a Alemanha.”

Adolfo Avoglio Hecht

IMIGRAÇÃO PORTUGUESA

      Entre 1900 e 1915, a emigração na Europa foi intensa. Aqueles países superpovoados viviam uma situação de excesso de mão de obra, gerando problemas de caráter social. Período de maior intensidade no fluxo migratório. A massa de indivíduos, envolvidos nesse processo, se dirigia para os países da América. Preferiam os EUA. O Brasil está entre os que menos absorvia, mesmo considerando a necessidade de braços para a lavoura cafeeira.

Imigrantes portugueses – Miguel Gomes da Silva e Stella Mardegan Gomes da Silva 1901

 Ao final desse período, Portugal sustentava a saída de 270.000 pessoas.
Únicos imigrantes europeus, durante o período colonial, os portugueses, durante os 30 primeiros anos que seguintes à Independência, deixaram de vir. Recomeçam a partir de 1853, chegando a ser significativo o contingente desses imigrantes. Pois, até 1930, representavam 29% da imigração no Brasil. Estabeleciam-se, em todo o território nacional, nas fazendas de café, mas na primeira oportunidade, seguiam para as cidades e abriam seu pequeno negócio. Sobressaiam-se com padarias, mercearias e serralherias. Também havia, entre eles, muitos ferreiros.
A construção da ferrovia os atrai para Penápolis. Trabalham na extração de madeira, para os dormentes da estrada de ferro. Contribuíram também na construção civil. As primeiras serrarias eram de portugueses. O objetivo, dos que para cá vieram, era trabalhar por empreita, não se dedicaram ao operariado.

“A igreja de Fátima foi construída pela colônia portuguesa – de acordo com a primeira ata, o fundador foi Manoel Gomes da Silva. A colônia portuguesa cuidou da manutenção e direção da Igreja até 1989. Agora está sob os cuidados da Comunidade do Bairro de Fátima.”

Álvaro Gomes da Silva

“ A guerra de 14 durou quatro anos. Minha mãe comprava sardinha já salgada para fazer comida com ele. Pois o sal não existia.” “Acho que naquele tempo era melhor, não precisava colocar veneno nos mantimentos – uma gente forte – naquele tempo não tinha médico… como antigamente não tinha pó de ferro, minha mãe lavava a enxada, o enxadão e juntava pregos enferrujados, fervia tudo aquilo e dava o xarope para nós, para ficarmos forte.”

Lídia da Costa Serrador Pereira

“Do Paraguai de Cima para o Alto Alegre, a estrada foi feita pelo povo de picada de foice.”

Alfredo Alves Penteado

“Lá(em Portugal), quem tem um alqueire de terra, é fazendeiro.”

Clementino Antonio Corrêa

“Havia em Bauru, um Consulado que registrava a chegada das famílias e as encaminhava para as zonas onde houvesse trabalho e Penápolis era um campo novo e rico em oportunidades.”

Prof. Fausto Ribeiro de Barros

“Meu pai veio para Penápolis porque a terra era muito longe, era igual Rondônia hoje, ninguém queria ir, a terra era mais barata, a estrada de ferro começando por aqui – naquele tempo (1915) era Avanhandava…aqui em Penápolis não tinha nada.”

Leonor Penteado Valadão

Imigrantes Portugueses

Troca de caldeiras na Serraria da família Fernandes – 1943

“…meu pai veio a Penápolis arrumar uma casa para a gente morar, ficou na pensão do Manoel Domingos Ventura…comprou mantimentos, machado, foice, ferramentas e bala de carabina, comprou umas 6 dúzias. Naquele tempo, todo mundo andava armado dentro do trem. Ficou em Penápolis em 1911, por volta de outubro para frente. Porque ele comprou as terras do Cruz (Manoel Bento da)…em Birigui, nos instalamos na casa da estação e após o Natal, Francisco Galindo de Castro trouxe a mulher para fazer serviço doméstico para os homens. Foi a primeira mulher que veio para Birigui, chamava-se Antonia Real Dias.”

Antonio da Silva Nunes

“Era de hábito muito religioso, na Semana Santa, na 6ª feira – dia de Jesus Morto – era proibido abrir as janelas, varrer a casa, pentear os cabelos, só faziam após o meio dia.”

Neusa Fernandes Franzino (filha de Albertino Fernandes)

 

“O Sr. Francisco Azenha veio para o Brasil em 1907, casou-se com uma italiana de Nápole, Dona Ana Rillo e tiveram 9 filhos: José, Maria, Donata, Francisco, Nair, Aparecida, Ana (minha esposa), Tereza e Lair.”

Benedicto Falleiros

 

“…em 1961 eu fui para lá (Portugal) e revi pessoas da minha idade…eu sou muito emotivo, fiquei doente e com um mês e pouco voltei e só me senti feliz quando o avião pousou em Pernambuco, eu falei:- “Graças a Deus, se eu morrer, quero morrer num país chamado Brasil”- e aqui estou até hoje com a minha família.”

Antonio da Silva Pereira

 

“Penápolis se resumia a … onde hoje é a estação de Estrada de Ferro, ali era toda a vida e aquele coreto que está em frente a igreja da Aparecida fazia parte do Jardim da antiga rodoviária.”

Nair Rodrigues Fernandes (filha de Antonio Rodrigues Fernandes)

IMIGRAÇÃO ÁRABE

       Em 1548, entre os homens de Tomé de Souza havia cristãos do Oriente. Como já tinham conhecimento do dialeto negro, esses homens serviam de intérpretes entre os da Casa Grande e os da Senzala.
Mais tarde, já no século XVII, esses imigrantes embrenharam-se para o interior do Brasil com suas malas de mascates. Esse personagem é marcante na história da economia brasileira.
O massacre pelos turcos em 1860, as guerras civis que se prolongaram até 1914 e o início da Primeira Grande Guerra, em que a Turquia se aliou a Alemanha, geraram muita miséria e forçou a emigração oriental. Momento que culminou com a situação de oportunidade que existia o Brasil, com a agricultura em alta e o início da industrialização. Formou-se, nessa ocasião, a segunda maior colônia de ÁRABES no Brasil – a primeira era nos Estados Unidos.
Espalharam-se pelo país, não só nos grande centros, como nas pequenas cidades do interior. De natureza peregrina desde os primórdios, adaptaram-se mais facilmente que os demais grupos étnicos. Penápolis recebeu imigrantes de Machgara ,Akrinxu, Rhina, Sultan Iacob, Damasco , Hasbaia , Bisous e Mahjes Huh, Hibarie e Beirute.
Dos que para cá vieram, alguns se dedicaram ao comércio e uma minoria se dedicou a agricultura, já como proprietários, e também no beneficiamento de grãos. Marcante a participação da colônia nas campanhas de levantamento de fundos para a construção da Santa Casa de Misericórdia e do Ginásio do Estado, hoje EEPG Dr. Carlos Sampaio Filho. Dos que residem em Penápolis, alguns ainda mantém propriedades na terra natal e, eventualmente, para lá se dirigem.

Família Caruí

Imigrantes árabes – 1961. Sentados:1-Julieta, 2-Janete, 3-Jeni, 4-Jamil. Em pé:1-José Carlos, 2-Michel Carui, 3-Milchel Hadad, 4-Farid, 5-Fays, 6-Wilson.

“Lá ele era roceiro, plantava trigo que era a lavoura maior de lá…desceu no porto de Santos e de lá, com informações de alguns parentes que aqui já estavam…trabalhando de mascate, carregar mala e é o que todo patrício faz quando chega do Líbano. Até fazer o “pé de meia”, eles mascateiam para ganhar um dinheirinho até abrir uma loja.”

Calil Amim Sader sobre seu pai

“Vim para o Brasil, em setembro de1926, saí do Líbano fugindo da revolução drusa contra os cristãos”.

Aziz Salim Sayeg

 

“Eles moravam, lá na Síria, em vilas e roças fazendo seus serviços agrícolas e não tinham vizinhos, o lazer era jogar baralho e visitar parentes à noite. Chegaram em 1912, desembaram em Santos”.

Inah Adas sobre seu pai José Adas e seus seis irmãos.

 

“…ele morava lá, depois ele viajava para o Brasil, ele ia e voltava, passava dois ou três anos lá e depois voltava para o Brasil de novo…viajava muito”.

Nadime Ayub Concon sobre José Miguel Ayub

 

“Vim para o Brasil com 17 anos de idade ,em 1928. A viagem durou 27 dias. Vim só, fui para Itú, onde fiquei oito dias, depois vim para Promissão. Escolhi o Brasil porque já tinha parentes aqui e pensei que trabalhando dois ou três anos ficaria rico, mas foi ao contrário, era bom, mas tinha que trabalhar. Comecei a trabalhar mascateando com linha e botões.”

Alberto Chuffi

Jazz Sabino

Conjunto Musical – Jazz Sabino – 1938 Sentados: 1- Pedro Andaló (piston de vara), 2- Luis (piston), 3- Nagib Sabino (saxofone), 4- Salomão Sabino (violino), 5- Almaza Sabino (piano). Em pé: 1- Clóvis Bissoli (banjo), 2- Michel Mellis (pandeiro), 3- Américo Avian (cavaquinho), 4- Isaías Marchesi (bateria), 5- Onofre Rodrigueiro (vocal), 6- Aniz Sabino (acordeon).

“Todos em casa estudavam música, quase todos tocam um instrumento.”

Almaza Sabino

 

“Eu me lembro que em 1948 onde é o Banco do Estado era o cinema, onde hoje é a Caixa Econômica (Federal) era a Padaria Vitória, tinha o serviço de alto-falantes ali. Tinha o Clube Corínthians , ficava em frente a farmácia da esquina, o Penapolense lá em baixo, onde é o Museu do Sol hoje e tinha outro clube também, Clube Recreativo Espanhol, lá em cima. Haviam dois bancos…um footing em frente ao cinema…era movimentado…as ruas eram pedegrulhadas.”

Nemer José Ayub

“Cheguei em Penápolis em março de 1927, parei na estação, me falaram que tinha um patrício que tinha um bar lá, era o finado Sabino, pai do Nagib Sabino. Eu cheguei, encostei e fiquei olhando…fizemos amizade… Comecei a mascatear pelos bairros do Paraguai, Araponga, Lageado, Matão de Cima, Matão de Baixo, Bonito, Alto Alegre, enfim…andei por mais ou menos dois meses com a mala na mão, ganhei dinheiro, comprei um cavalo e comecei a mascatear a cavalo, ajustei um pernambucano como empregado – esse Pedro Pereira, hoje é advogado.

Abdul Karin Mohamad Baracat

“…em alto mar, a tripulação era de gauleses e eu nunca tinha visto negros em toda a minha vida e aquilo me apavorou mais ainda que a água e eu ficava dizendo que não queria vir para o Brasil, o que eu vou fazer lá?”

Josefina Sayeg Humsi

 

“No navio estavam pessoas de todos os lugares do Oriente: turcos, sírios, iranianos, árabes, armênios, iraquianos, muito árabe, sabe. O navio parece que vinha do Egito, pois a maioria dos marinheiros eram egípcios.”

Linda Zeine Issa

 

“O Brasil era o país das esperanças…”

Nazira Elias Sader Koure

Franciscanos em Penápolis

Chegaram em 1907 e instalaram-se provisoriamente na “1ª Casa”, especialmente construída para abrigá-los. Dos l00 alqueires de terra, que receberam em doação, venderam a preços baixos e facilitados 30 alqueires para a construção da cidade. Com esse dinheiro, deram início a construção do Convento. Já, em 1909, abriram a primeira sala de aula.

1ª fase do Santuário
1ª fase do Santuário de São Francisco de Assis (padroeiro da cidade) – 27.04.1931.

A Paróquia e a cidade de Penápolis comemoram 90 anos de fundação. Ambas fundadas no mesmo dia. A primeira missa foi celebrada pelo Frei Bernardino de Lavalle, em 25 de outubro de 1908, data em que o povoado passa a chamar-se Santa Cruz do Avanhandava.
A atuação dos CAPUCHINHOS resume-se em urbanização, evangelização e civilização de um povoamento que se iniciava. Não se conta a história da cidade sem mencionar a Paróquia.
Em 09 de outubro de 1906, Frei Boaventura de Aldeano chega a São José do Rio Preto e dá início à procura de um lugar adequado para a instalação de uma

Santuário São Francisco de Assis - 1960

Santuário São Francisco de Assis – 1960

paróquia. Não acha, atravessa o rio Tietê e depara com quatro famílias já instaladas no bairro do Lageado: ar puro, água limpa, solo fértil e a aproximação da linha férrea.Com ela , o desenvolvimento. Em dezembro de 1907, chegam os Freis Bernardino de Lavalle e José de Cassana. Lageado era uma área destinada à formação de um Patrimônio. Havia ali uma capela onde, eventualmente, o pároco de Rio Preto celebrava missa. No Patrimônio Nosso Senhor dos Passos havia uma capela em ruínas, cuja construção se iniciara em 1914 por Frei Domingos de Rieze. Em 1920 ela foi concluída, ocasião em que já havia uma preocupação, por parte dos penapolenses , na preservação dessa memória. Houve uma festa de inauguração, que envolveu toda a comunidade, e um leilão de prendas foi promovido em benefício da mesma. A cidade foi fundada em 1908. Portanto, em 1920, o patrimônio já estava desabitado.
A escritura de doação de 100 alqueires de terra aos Franciscanos foi lavrada em 07 de dezembro de 1906. Após a celebração da missa de fundação da cidade, em 25 de outubro de 1908, Frei Bernardino de Lavalle retorna a São Paulo, deixando os demais frades residentes na “Primeira Casa”. Os poucos moradores, que contribuíram para a construção dessa casa, já residiam no povoado. A capela servia também para sala de aula. Ali permaneceram por 2 anos.

Fachada da Matriz - 1995
Fachada da Matriz – 1995.

Frei Domingos de Rieze chega em 1909, lança a pedra fundamental da nova residência. A construção foi supervisionada por ele e frei José e inaugurada em 1910. Pouco tempo depois, abriram duas salas para escola e, em 1912, foi lançada a pedra fundamental do Colégio São Francisco, inaugurado no dia 29 de julho de 1913.
Além da criação da Fundação do Apostolado da Oração, em 20 de junho de 1909, os frades continuam seus trabalhos. Em 14 de janeiro de 1917, fundam a Irmandade do Santíssimo Sacramento e no dia 10 de setembro dão início à Conferência dos Vicentinos; aos 16 de fevereiro de 1913, Frei Crispim de Roncone organiza a União

dos Moços Católicos. Regia-se por estatuto próprio, com sede no Colégio São Francisco, onde havia salão de jogos e festas, quadra de esportes, biblioteca com sala de leitura e de estudos. Teve relevantes atividades até a década de 1930, quando se fundou a Congregação Mariana. “O Sentinella”- periódico redigido por Frei Crispin de Roncone assessorado pelo professor Prisciliano dos Santos e

Interior da Matriz - 1ª metade do séc.XXInterior da Matriz, com características originais – 1ª metade do séc XX.

participação dos jovens. O primeiro número saiu no dia 30 de outubro de 1924.A capela Nossa Senhora Aparecida foi edificada pelos Capuchinhos

e benta por Frei Vidal de Moema em 1916.
A pedra fundamental da Santa Casa de Misericórdia foi lançada em 16 de setembro de 1917, quando aqui esteve o secretário do interior, Rodrigues Alves. Construída em terreno doado pela Ordem, a planta é do engenheiro Frei Domingos de Rieze, que em 1923, na solenidade de inauguração assume como Provedor.

Interior da Matriz - 1995Interior da Matriz – 1995.

A atual Matriz teve sua pedra fundamental lançada em 23 de abril de 1916, pelos frades Ricardo de Denno, Bernardo de Vezzano e Domingos de Rieze. Aos 07 de outubro do ano seguinte, a Capela-mor e os altares laterais eram bentos e oferecidos ao público.
Em 09 de outubro de 1955, D. Henrique Gelain confere o título de Santuário à Paróquia de Penápolis. O vigário era Frei Henrique de Pirassununga. Outra cidade que possui o Santuário de São Francisco de Assis é Canindé, no Ceará. As duas cidades comemoram em 04 de outubro o dia desse Padroeiro.
Este templo sofre duas grandes reformas: uma, na década de 1950, quando se constrói a torre alterando a planta original e, em 1980, quando se conclui a reforma total da igreja, aumentando as larguras das naves em detrimento dos altares laterais. O antigo painel de azulejos, com uma pintura de São Francisco em estilo português, é substituído por um painel à óleo e os vitrais existentes, por outros, num estilo contemporâneo. Houve outras mudanças arquitetônicas, como a construção de novas alas no convento, quadras de esporte, auditórios e salas comerciais. O “cinema dos padres” já não existe

Colégio São Francisco de Assis

Colégio São Francisco – Salão Paroquial, ao lado do Santuário – 1ª metade do séc.XX.

mais, nem o antigo “salão paroquial.” Hoje, o Santuário enverga uma torre de 40 metros de altura, com uma cruz toda iluminada, fixada no seu topo e relógio de 4 faces, onde se vê as horas de qualquer lugar da cidade. Isso enquanto não houver tantos prédios altos. Muitos dos afrescos da fase original foram cobertos, devido ao alto custo da restauração. O pátio frontal foi revestido de calçada portuguesa.
Muitas capelas rurais e urbanas foram surgindo desde a fundação da cidade. Hoje algumas estão desativadas. Principalmente as construídas em núcleos de fazendas, antes cafeeiras, que hoje desenvolvem a pecuária ou a cana-de-açúcar. Essas atividades são as grandes responsáveis pelo êxodo rural.

 

MUSEU HISTÓRICO E PEDAGÓGICO

“FERNÃO DIAS PAES”


Prédio do Paço Municipal, inaugurado em 07.07.1930, destinado á cultura em 1966

Criado pelo decreto 33.980, de 19 de novembro de l958, denominou-seMUSEU HISTORICO E PEDAGÓGICO “FERNÃO DIAS PAES”, para complementar a rede de museus de mesma natureza, no interior do Estado de São Paulo. Iniciativa do então governador Jânio Quadros, através do Instituto Histórico e Geográfico. Comemorava-se, nesse ano, o “Cinquentenário de Fundação da Cidade”- ocasião em que tanto os políticos locais, quanto os profissionais da educação e grande parte da coletividade estavam bastante motivados com a criação de uma Entidade, destinada a buscar e preservar documentos e acervos relacionados à história local. Tudo se encaixava : de um lado, o governo estadual criando museus no interior para complementar a educação formal, de outro, a cidade voltada para a preservação da sua memória. Até um espaço físico (provisório, é verdade) já havia, era uma sala no interior do primeiro ginásio público da região – o Instituto Estadual de Educação Dr.

Museu Histórico – 1997

Carlos Sampaio Filho. No ano seguinte, às 20,30 horas do dia 28 de novembro, o Museu se instalava, em solenidade especial com ata de abertura. Participaram do evento : Dr. Bráulio Sammarco, Professor Dr. Vinício Stain Campos, Dr. Antonio Queiroz Filho, Sr. Orentino Martins (que fora nomeado presidente do Conselho Administrativo do Museu), Frei Felicíssimo do Prado, Wilson Monteiro, Raul Forchero Casasco, Irmã Cecília ,que representava o Educandário e a professora Maria de Lourdes Freire de Souza Machado, nomeada primeira diretora técnica pelo então prefeito, Sr. Joaquim Veiga Araújo, que também estava presente . Na ocasião era diretora do Ginásio.
Dava-se início às atividades de aquisição, classificação e organização do acervo. Tamanho foi o envolvimento dos penapolenses, que as coleções se formaram rapidamente e em pouco tempo, a sala disponível já era pequena. Inicia-se, então, “uma história de ocupações provisórias”. Foram dezenas de espaços nesses anos todos. Nenhuma outra Instituição dessa natureza, em Penápolis, mudou tanto de endereço.

Visita guiada – 1997

   Em l968, a professora Maria Antonieta Dias de Aguiar Prouvot assume sua direção, dando continuidade às atividades. A professora Anésia Vince Ferreira, desde l976 trabalhava na formação de um Centro de Folclore na Funepe quando, em 30 de agosto de 1980, para sua surpresa, fora designada para a direção do Museu Histórico, do qual nem sabia da existência. Pois o mesmo estava acéfalo e seu acervo guardado, em depósitos totalmente inadequados. Juntou o que restava, convocou as autoridades locais e registrou solenemente o início de uma nova fase. Trabalhou no sentido da preservação da memória da cidade, do patrono e de reconquistar o apoio da comunidade. Esteve à frente dos museus Histórico e de Folclore até 1985, ocasião em que assume a professora Elizabeth Bergner Dias de Aguiar, ali permanecendo até dezembro de 1986. Período em que

Documentos do Acervo do Museu Histórico – 1997

também dirigia o Museu do Sol, fundado em 1972. Em 21 de Julho de 1987, assumo a direção. O acervo encontrava-se numa casa de fundos com a Cozinha Piloto. Seus livros e a parte administrativa ocupavam uma sala de 9 m² nas dependências do Museu do Folclore, na rua Anchieta, 150, onde era antes a Rádio Difusora. Os dois Museus dividiram o mesmo espaço até dezembro de 1991, quando o Histórico se mudou para a rua Santa Clara, 250 e, posteriormente, para a avenida Expedicionário Diogo Garcia Martins, 530.
A separação representou uma vitória para ambos. A partir de então, conquistou-se a independência administrativa e delineou-se o perfil de cada um.

Banco de dados do museu, inaugurado em 20.01.1997.

Os acervos se definiram e se enriqueceram, os eventos tornaram-se específicos da área de cada um e a nova museografia ficou estabelecida, não só diante dos profissionais da área, como do público em geral. Enfim, os dois Museus cresceram à partir daí. O Museu conta com um acervo, formado ao longo dos seus 40 anos. É rico em significação histórica, em informação e em possibilidades de linguagens bastante variadas, criando condições de montagens de exposições temáticas, conforme a oportunidade.
O espaço, que ora ocupa, foi adequada-mente preparado para receber as coleções que estão em exposição. Montado dentro dos padrões da museologia atual, sem desconsiderar as carac-terísticas ar-quitetônicas do prédio – Patrimônio Histórico idealizado, construído e ocupado pela administração municipal até 1996.
O Museu viveu bons momentos em toda sua história. Isso garantiu sua sobrevivência. Dos muitos Museus criados no interior paulista, poucos ainda existem. Isso não se deve somente às suas dirigentes, mas sobretudo ao envolvimento do penapolense, ao orgulho que ele tem em levar aos visitantes, aspectos da nossa história. Penápolis se sobressai nessa área, tem vocação cultural e profissionais sérios em todos os segmentos da área.

Atividade de arte-educação

       Hoje, o Museu não mais se resume a um “depósito de velharias”. Suas exposições estão dentro dos padrões vigentes, recorrendo à imagem para transmissão da informação, enquanto sua biblioteca atua com mais profundidade sobre os vários aspectos da nossa história. Possui uma sala de Teleconferências, com os equipamentos necessários; um Banco de Dados com registro de cadastro dos imigrantes em Penápolis, representando o único no interior do Estado; mantém um ateliê de arte educação para crianças e inicia esse trabalho com jovens; promove eventualmente cursos, exposições e intercâmbios, além de garan-tir monitoria aos visitantes de qualquer nível de conhecimento ou interesse; desenvolve pesquisas e atende pesquisadores. Dinamismo – esse é o lema da nossa equipe, que sempre trabalhou coesa. Por isso o sucesso do Museu Histórico.

Ana Maria Pereira Franco

DOCUMENTOS DAS MESAS REDONDAS

I MESA REDONDA: “A MÃE TRABALHADORA” – 21.05.1998

       Mais uma vez exercendo sua função pedagógica, o MUSEU HISTÓRICO promove um debate sobre a situação das famílias, em que a mãe trabalha fora de casa. Esse tema é atual, uma vez que, em tempos passados, o trabalho da mãe fora do lar era raro. “Por que não provocar a reflexão acerca dessa nova realidade? Nunca, na história da humanidade, tantas mães saíram de suas casas e dividiram a assistência dos filhos com os serviçais, parentes, vizinhos e a mídia.”

Marco Antonio Filipin, Maria Lúcia Monteiro Casarotto, Ana Franco, Alba M.F. Rossi, Maria Natalina Daud, Judith dos Reis Visoni, Dra. Maria Salete Cavestré

A educadora, professora Judith dos Reis Visoni, fez um histórico da mulher através dos tempos, da supremacia egoística cristalizada milenarmente, situando a mulher no mundo doméstico, como objeto de prazer sexual. Verifica-se o conceito de que a mulher, como ser inferior, deveria cuidar da função reprodutiva, encarregar-se dos trabalhos do lar, aguardando pacientemente a volta do homem à casa.
      De civilização em civilização, as mulheres foram reprimindo os seus anseios de realização como seres humanos.
Na Roma Antiga podiam frequentar escolas elementares e, quando tinham condições econômicas, lhes era permitido o acesso à educação posterior.
Na Grécia, eram consideradas naturalmente corrompidas, porque existiam para criar a matéria, os filhos eram da mulher, considerados “filhos orgânicos”, mas no espírito, eram filhos do homem. As mulheres não passavam de reprodutoras da espécie humana.
No Egito, o trabalho manual era tarefa dos escravos e das mulheres. Os primeiros faziam serviços mais pesados e as mulheres escravas serviam dentro de casa.
A sociedade etrusca pode ser apontada como exceção nesse contexto, pelo fato de nela existir o matriarcado.
Entre os hebreus, algumas mulheres simbolizavam aspectos pejorativos: Eva “seduziu” Adão, comprometendo toda a felicidade humana, sendo responsável pela expulsão do casal do paraíso; Dalila “tirou” a força moral de Sanção.
A partir do século XVIII, o lar passou a ser uma unidade econômica.
As mulheres produziam bens de consumo: fiavam, teciam, mas sempre dentro de casa.
Com a industrialização, o trabalho feminino também se ramificou com um longo e triste capítulo, escrito em traços negros, na caminhada da mulher. Desenvolveu-se a prostituição e a exploração da mulher.
A partir do século XIX, a mulher conquista o posto de formadora, educadora e a maternidade assume um papel mais importante no contexto social.
As duas grandes guerras desse século causaram desemprego, desajustes e desnivelaram o número de homens e mulheres. Isso levou a mulher para uma viagem sem volta, levou-a a assumir papéis fora de casa. Foi para os campos de batalha como enfermeira, atuou nos serviços de transportes, ensacarias, consertos de trilhos, construção e reconstrução de casas. Tornaram-se operárias, experimentaram a burocracia, horários, disciplina, hierarquia e coordenação. Descobriram a própria omissão, aprenderam a dividir o tempo e a organizar-se.
A partir da década de 60, houve revolução nos costumes. Com o fim ao regime patriarcal. As regras básicas da convivência foram abaladas nos seus alicerces. Os psicólogos já não se entendiam, quanto à teoria do não . Não castigar seus filhos, não proibir, não, não, não. Essas crianças, quando adultas, tiveram enormes dificuldades, para estabelecer limites aos seus filhos…as mulheres já fora de casa.
Hoje, nesse novo contexto familiar, os filhos são criados na conformidade da sociedade atual, abalando a ética, tocando a desonestidade. Os pais tentam abdicar do compromisso de garantir aos filhos os princípios morais e religiosos, estimular o comportamento ético na convivência social. Essa educação básica acabou ficando a cargo da escola. Hoje, já há uma conscientização dos pais dessa obrigação, já há uma preocupação com a qualidade nas relações familiares, uma vez que a quantidade dessa convivência caiu em função dessa nova realidade econômica mundial, que leva a mulher a atuar no mercado de trabalho, para complementar o orçamento doméstico, além, é claro, de garantir essa sua nova conquista social. Hoje, a mulher caminha em condições de igualdade com o homem, não só no ambiente doméstico, mas em todos os setores da sociedade.
Dra. Maria Salete Cavestré – Delegada da Mulher em Penápolis – falou sobre a violência no lar. Se isso está vinculado ao fato da mulher trabalhar fora de casa.
Pelas estatísticas, o alcoolismo é o maior indicador dessas ocorrências. O ciúme e insegurança leva o homem à violência doméstica. O fato da mulher trabalhar fora, genericamente, não leva à violência. A mãe trabalhadora tem mais condições de denunciar as agressões sofridas. Pois, ela pode, com seu salário, de alguma forma, sustentar-se e aos filhos, encontrando soluções, resolvendo problemas. “A sociedade deve conscientizar-se de que a mulher não existe só para o lar, que ela não precisa ser comandada e sustentada pelo homem.”
A professora Alba Maria Ferreira Rossi – Delegada de Ensino de Penápolis – discorreu sobre o rendimento escolar abordando três fatores: Político; Econômico – social e Familiar.
No primeiro, lembrou que o número de mulheres alfabetizadas no Estado de São Paulo, eleitoras, é bastante expressivo. Ao escolher um candidato, ela está influindo na política educacional do município, estado e nação.
No aspecto econômico – social, esclarece que o trabalho da mulher gera renda, proporcionando mais conforto e estabilidade à família. Ela passa a ter uma percepção mais aguçada da realidade, em que vive. Estas experiências ajudam a mãe trabalhadora a perceber a importância da escolarização de seus filhos. Isso influi no maior rendimento escolar.
Quanto ao aspecto familiar, a Delegada de Ensino frisou bem: “Não é a quantidade de tempo, que a mãe passa com o filho, que é importante, mas a qualidade do relacionamento”.

Auditório da Câmara Municipal de Penápolis (1997).

 Famílias bem estruturadas favorecem um bom rendimento escolar. “Infelizmente, hoje temos a mãe eletrônica, a TV, que interfere negativamente na educação dos nossos filhos. É preciso ensiná-los a filtrar o que vêem na mídia. Estamos criando uma geração atemorizada. Os futuros professores devem saber construir mentalidades críticas”.
A mãe trabalhadora influi bastante nas atividades escolares, atuando em conselhos, participando, na escola, das dificuldades dos filhos, integrando as APMs reivindicam melhorias no ensino, entre outros. A professora da escola, em geral, é mãe trabalhadora, com dupla jornada. O baixo salário obriga-a a correr de uma escola para outra, prejudicando seu rendimento, pois falta-lhe tempo para preparar suas aulas. Isso preocupa, pois os professores são formadores de opinião.
A psicóloga Maria Natalina de Almeida Daud traçou um perfil do ambiente familiar atual, a necessidade de considerar o que vem ocorrendo com a figura da mulher.
No início do século, ser mulher era sinônimo absoluto de ser mãe. Depois da procriação e dos cuidados com os filhos, ela esperava a morte, senão a física, a morte do desejo, da busca, da realização pessoal, e assim, com a educação centrada em suas mãos, o ciclo se repetia, com os homens sendo educados para fazer carreira e as mulheres para o casamento. Mas, por questões já citadas antes, a mulher descobre um outro mundo. Passa a ser esposa, mãe, amante, profissional e continua sendo mulher.

       Fora do lar, busca direitos iguais, prazer, auto – realização e traz ao lar suas conquistas, suas inquietações, garantindo maior equilíbrio na relação homem/mulher e maior respeito pela individualidade dos filhos. “Troca-se a educação repressiva pela expressiva. As crianças, antes vistas como projetos, mudam para indivíduos que “são”, que possuem idéias, que cobram, exigem, sentem”.
O conflito surge, às vezes, pelo fato de que as pessoas nem sempre estão preparadas para essa nova situação. É comum a angústia dos pais, que não sabem estabelecer limites, disciplina e, ao mesmo tempo, serem democráticos.
A família passa a ser menor, pois a mulher já não está mais disponível. Aumenta o número de casamentos desfeitos. Os homens consideram o fato da mulher trabalhar fora, como uma concessão e elas são então cobradas: devem ser excelentes profissionais, dar conta do serviço doméstico, ser boa mãe, ótima esposa e amante, etc… Como isso é impossível, a mulher tem dois caminhos: Abdica da profissão, sufocando seus anseios, vivendo em conflito permanente, até que o homem assimile essa realidade, ou, então, decide pela separação.
A educação dos filhos passa a ser dividida com a avó, a tia, a vizinha, a empregada ou a TV, influenciando na formação dos valores desse novo indivíduo.
A família está se reorganizando em novas bases. Cabe, portanto, às novas mães e pais continuarem o processo de lapidação dessa nova família. Pois, todo ser humano é dinâmico e está num processo contínuo de transformação.
Esse documento foi feito pela professora Maria Lúcia Monteiro Cazarotto.

DOCUMENTOS DAS MESAS REDONDAS

II MESA REDONDA: “A MÍDIA NO CONTEXTO SOCIAL” 18.06.1998

       Denvolvido por especialistas da área, esse evento, promovido pelo Museu, em parceria com o jornal “Diário de Penápolis”, recebeu mais de 170 pessoas, na sua grande maioria, jovens do 2º grau.
“Como a Família Vê a Mídia na Formação de Opinião” – um vídeo de 8 min. com depoimentos de pessoas dos vários segmentos da sociedade;
“História da Mídia Representada no Rádio, TV e Jornais” – ausente a socióloga responsável, mas substituída brilhantemente pelo comunicador Celso A. Pelosi, que também discorreu sobre “A Mídia na Vida do Cidadão”;
“Direitos Legais de Imprensa” – Dr. Jarbas Leal Marques da Silva, advogado – Presidente da subsecção da OAB em Penápolis.

Abertura da II Mesa Redonda, feita pelo pref. Dr.Firmino R. Sampaio, esq, A. Celso Pelosi – Dir.Executivo Rede Globo Noroeste Paulista.

       Ao falar em nome do Executivo, o prefeito Firmino Ribeiro Sampaio demonstrou estar inserido no assunto, evidenciando ter sido um dos primeiros penapolenses a ter acesso à Internet. Mostrou- se satisfeito com a iniciativa dos organizadores, por promoverem algo além das atividades cotidianas. “Quando se fala em comunicação, devemos lembrar da imprensa escrita, rádios e emissoras de televisão. E hoje, mais do que nunca, a TV é de suma importância”. Lembrou que, em quase todos os países, há programas de televisão brasileiros, mesmo que em fuso horário diferente. Que a Internet – rede mundial de comunicação por computador – une pessoas distantes. Destacou que a mídia tem que ser bem direcionada, pensando no bem comum. Enfatizou que “todo cidadão tem o direito de ampliar os seus conhecimentos. Sem informação, viveremos alheios e, vivendo alheios a tudo e a todos, não seremos nada, principalmente agora, quando nos deparamos com um mundo globalizado”.
       “Falar sobre Direitos Legais da Imprensa é o mesmo que falar sobre os direitos da pessoa humana. Desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a liberdade do ser humano e da imprensa já vem sendo reforçados no mundo inteiro”. À partir deste princípio, Dr. Jarbas desenvolveu sua palestra. Para ele, a imprensa é farol, demonstração clara se um país, governo e povo são livres, ou não. Lembrou que, no regime ditatorial, uma das primeiras providências é calar a imprensa, fechando jornais e prendendo jornalistas. Ele fez ainda algumas observações sobre as constituições brasileiras e o papel da imprensa. “Fala-se e escreve-se o que se quer, mas, naturalmente, a liberdade tem ao seu lado uma outra característica muito importante, que é a responsabilidade”. Frisou que a Constituição, embora dê algum direcionamento, pode tirar alguns direitos, como no art. 1º – “É livre a manifestação de pensamento, a procura, recebimento ou difusão de informações ou idéias, por qualquer meio e sem depender de censura, respondendo cada um nos termos da lei, pelos abusos que cometeu”. Dr. Jarbas fez outras abordagens dos direitos e deveres, dentro do tema de que foi incumbido e destacou que a imprensa pode tudo, porém, o direito de um, é o mesmo do outro.

Auditório do Sindicato Rural (1998).

 Descontraidamente e abordando os primórdios da comunicação, para apresentar o tema a que se destinava, Celso A. Pelosi afirma não ter receitas e nem fórmulas acabadas para apresentar, mas relataria experiências e conhecimentos de anos de profissão. “A mídia está incorporada em nossas vidas, desde quando nascemos. Filmagens de nascimentos, casamentos, fotografias, etc… Necessidade das pessoas se comunicarem. Ela passa a ser uma necessidade intrínseca da humanidade”. Segundo ele, “todos buscam respostas para determinadas equações existenciais. Através das respostas, nós estabelecemos nossas relações sociais e o caminho, que se vai percorrer: da correção, da imprensa, através dos jornais e revistas, passando pela criação da fotografia, cinema, rádio e televisão. Como exemplo de outras formas de comunicação, disse que os arqueólogos buscam vestígios de civilizações, que deixaram gravados seus códigos e que, estudados, retratam sua história em todos os seus aspectos. O homem, hoje, envia sondas ao espaço em busca de sinais de outras formas de vida. Citou outro código de comunicação, muito conhecido da humanidade, que são os Mandamentos de Deus, gravados em tábuas, numa comunicação do Divino com o Humano. Lembrou que os sentidos da visão e audição são fundamentais, pois conseguem despertar outras emoções, como a curiosidade, existindo ainda outras formas, “até extra – sensoriais”, sem falar da intuição, “que poucos de nós desenvolvemos”. Advertiu que direitos pressupõem deveres e que o jornalista, no exercício de sua profissão, precisa ter ética e responsabilidade. Relacionou os veículos de comunicação de massa, os avanços tecnológicos, que são fundamentais nesse contexto. Pois viabilizam a comunicação dos astronautas na lua, com seus familiares na terra. A tecnologia agiliza a comunicação. A informação vai ser cada vez mais valorizada, podendo ser considerada um bem de consumo. Será um diferencial importante, para quem busca uma sociedade, cada vez mais competitiva. A mídia provoca integração e necessidade de falar outras línguas. Os “sites” mais visitados na Internet são as páginas de conversação. Como mensagem de otimismo aos jovens presentes, falou que devemos Ter a coragem de ser diferentes, deixando de lado a mediocridade. “Muitos erros que temos visto, se devem à acomodação de não defendermos aquilo em que acreditamos. Temos que recuperar o patrimônio moral da família”. A TV está envolvida com a sociedade, integrando-se com a sua luta, envolvendo-se com projetos comunitários e amplificando suas virtudes. Importante que se reflita sobre tudo aquilo que recebemos. Bom é separar fatos desagregadores, refletindo sobre os modelos, pode-se discernir o que é melhor. Hoje erra-se mais por desinformação e despreparo”.
O resultado dos debates foi positivo. Todos nós vivemos de informações, em todos os meios. É através da mídia, que conseguiremos receber e levar conhecimento. Portanto, o evento atingiu plenamente as nossas expectativas.
Esse documento foi elaborado pela Assessoria de Comunicação da P. M .P.

Quando vimos o que vimos, Quando ouvimos o que ouvimos, Quando sabemos o que sabemos, Fazemos o que fazemos.”

Jacques Hainard
Museu de Etnografia Neuchâtel Suíça


APÊNDICE
Expediente:

Coletânea Histórica – 40º Aniversário de Instalação do Museu Histórico e Pedagógico “Fernão Dias Paes”

SEC, de Penápolis (SP)
Praça 09 de Julho, 150 – centro
CEP: 16.300-000
Fone (018)3652.1747 – ramal 284 Fax:3652.1747 – ramal 260

e-mail
museu.historico@zaz.com.br

Pesquisa, Texto e Direção de Arte
Ana Maria Pereira Franco

Revisão de Texto
Airton Silva de Almeida

Diagramação
Adriana Lacava Ruffato Soliani
Antonio Augusto Martins Gonçalves

Revisão de Diagramação e Editoração e capa
Silvia Maria Pereira

Foto Capa
Luiz Carlos Covelati
acervo – Ikuzo Imai

Fotos
Acervo Museu

Impressão
Proibida a venda 


Bibliografia:

BARROS, Fausto Ribeiro de – “Achêgas para a História de Pennápolis (de 1767 a 1948)”- edição de 1948;
BARROS, Fausto Ribeiro de – “Penápolis, História e Geografia” – 1ª edição – 1992;
RIBEIRO, Typ. Soc. Editora Olegário – “Almanach de Pennápolis”- edição de 1920; Coleção NOSSO SÉCULO – abril cultural – editor Victor Civita – 1968;
SILVA, Hélio – “História da República Brasileira” – editora Três – 1975;
RIBEIRO, Darcy – “O Povo Brasileiro – A Formação e o Sentido do Brasil”- Companhia das Letras – 1995;
LIMA, Eteobaldo E. de Oliveira – “Os Índios Caingangues no Oeste do Estado de São Paulo”- pesquisa;
LIMA, João Francisco Tidei – “A Ocupação da Terra e a Destruição do Índios na Região de Bauru”- Dissertação de Mestrado em Ciências Humanas na área de História Social – 1978;
ALMEIDA, Pio de – “Os Kaingangs da Noroeste e desta região”- publicação no Jornal de Tupã – 05.04.1975;
OLIVEIRA, José Joaquim Machado de – “Aspectos da Organização Social dos kaingang Paulista” – RV do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – 2ª edição – 1967; Consulta ao IBGE de Penápolis;
ERCILLA, A. M. e PINHEIRO, Brenno – “O Estado de S.Paulo – Zona Noroeste” – 1928 – Propagadora Pan-americana.
MARTINS, Orentino – “O Salto do Avanhandava – História e Documentação”- 1988 – CESP;
ARRUDA, Orôncio Vaz de Filho – “Andanças” – Editora Nobel – 1987;
SAES, Flávio Azevedo Marques de – “As Ferrovias de São Paulo 1870-1940”- Hucitec – 1981;
BECK, Susana Marques Dias – “Os Andaluzes”- Ed. Moderna – 1980;
MELLO, Nóbrega – “História do rio Tietê” – 2ª edição – coleção Paulística – 1978;
SALES, Humberto – “Japão: experiências e observações de uma viagem”- edit. Brasília – 1979;
STADEN, Hans – “Suas Viagens e Captiveiros Entre os Selvagens do Brazil”- Edição Commemorativa do 4º centenário de S.Paulo – Typographia da Casa Eclética – 1900;
TAZAWA, Yutaka – “História Cultural do Japão – Uma Perspectiva”- Min. dos Neg. Estrangeiros do Japão – 1973;PRIMEIRO, Frei Fidélis M. de – “Capuchinhos em Terras de Santa Cruz”- 1940;
NAKAMURA, Takafusa – “Desenvolvimento Econômico do Japão Moderno”- 1985 – M. N.E.;
TORAL, Hernan Crespo – “Função Educativa dos Museus” – Seminário Regional da Unesco – 1958;
ICOM – “A Memória do Pensamento Museológico Contemporâneo”- Documentos e Depoimentos;
ALMEIDA, Adriana Mortara de e Camilo de Mello Vasconcelos – “Por que visitar Museus”; MOSCA, Antonella – “O Futuro do Museu”;
SEGALL, Maurício – “Museologia Brasileira – da Crítica à Proposta”;
PESQUISA DE CAMPO junto aos Imigrantes (ou descendentes) residentes na região e coletânea de depoimentos de pioneiros da cidade, cujas informações foram comprovadas através de documentos;
OUTRAS FONTES: pesquisas e publicações que constam do acervo bibliográfico do Museu Histórico e Pedagógico “Fernão Dias Paes”, de Penápolis.

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